Estou correndo fazendo pesquisas mil, então seguem alguns posts pra vocês curtirem a semana sem mim, mas com muita informação! =)
1. A palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fez muito sucesso no ano passado. Ela fala sobre o perigo de usar os estereótipos que acreditamos ser verdadeiros a respeito de cada cultura para avaliar obras literárias. Vídeo útil para quem dá aula de artes, já que a história da arte privilegia a arte ocidental feita por homens brancos. Eu costumava começar minhas aulas de história do cinema com esse vídeo e tinha uma boa resposta dos alunos. Em inglês, com legendas em português e outros idiomas.
2.Julia Bacha é brasileira e conta sobre a repercussão do seu documentário “Budrus”, sobre a resistência civil num vilarejo palestino. Ela fala coisas bem interessantes sobre como a mídia exclui acontecimentos que não se encaixam nas narrativas dominantes sobre os conflitos, e também como esse caráter narrativo pode nos ajudar a entender perspectivas que parecem estranhas a nós (a parte que ela fala da Tea Party é a melhor!). Está em inglês, sem legendas.
3. Mulheres e Violência Sexual nas Guerras
A Bia Cardoso faz um apanhado de links sobre o tema, que finalmente passa a receber mais atenção dos historiadores.
“O estupro e a violência sexual sempre ocorreram em guerras, mas cada vez mais tem sido usados como uma estratégia. Há uma grande luta até para que ele seja visto como crime de guerra e não como mais um crime entre vários.”
“Quando ficou claro que Hosni Mubarak cairia, o Exército agrediu quem queria agredir. E os homens que estavam na Praça Tahrir se aproveitaram da situação para assediar as mulheres. Foi uma vitória amarga para as mulheres. Num momento elas estavam lado a lado com os homens. No outro, tornaram-se objetos de novo.”
“A reação das pessoas é mandar as mulheres para a cozinha, para a vida privada – mas evitam falar sobre o quê, numa cultura, faz com que pareça aceitável fazer mulheres como alvos.”
4. Stephen Bocskay, professor da Brown University está terminando uma pesquisa sobre o surgimento de consciência racial nas letras de samba no Brasil
Luiz Zanin entrevistou o pesquisador aqui. O projeto deve virar livro ano que vem.
São Paulo mais uma vez não nos decepciona e mostra que é a cidade mais coxinha e reacionária desse país, aprovando o Dia do Orgulho Hétero.
Um conhecido no facebook me perguntou porque eu era contra a criação da data. Como acho que há mais gente que pensa que a criação dessa data é inofensiva e acho o debate importante, seguem meus argumentos:
Na parada do orgulho gay os gays estão manifestando o seu direito de declarar publicamente sua sexualidade, direito esse que foi retirado deles durante séculos. Comemoram uma mudança, reivindicam direitos que ainda lhe são negados e reafirmam suas conquistas etc. Quando existe um dia do orgulho hétero, o que esse dia quer dizer? E mais importante, o que esse dia quer dizer no contexto que vivemos na cidade de São Paulo hoje, onde pessoas morrem por serem gays? Se os heterossexuais já têm seus direitos garantidos, qual o interesse em comemorar seus direitos diante da limitação de direitos de outros grupos? Esse discurso (pra mim e muita gente) quer dizer no mínimo: “estou comemorando meus privilégios por ser hétero”. Fora o subtexto de “que saco vocês acharem legal ser gay, eu acho isso uma palhaçada e quero reafirmar que sou hétero e isso é certo/padrão/louvável”. Por que esse dia do orgulho hétero surgiu DEPOIS do avanço do movimento gay? Oras, porque é um grupo privilegiado querendo reafirmar seus privilégios.
Quando eu digo privilégio, me refiro, por exemplo, ao fato de eu poder me atracar com um cara na rua, enquanto uma amiga minha que é lésbica foi expulsa de um bar em que estava com a namorada. Além do constrangimento, ela precisou buscar advogados, ir a audiências, gastar tempo e dinheiro (além do custo emocional) para processar o bar e lutar pelo direito de demonstrar carinho em público. Eu sou hétero e por isso tenho o privilégio de poder expressar minha sexualidade mais livremente do que os gays. E eu não tenho nenhum orgulho disso. Por que raios declarar orgulho de ser hétero diante da heteronormatividade, numa cidade em que gays morrem por serem gays?
Todo mundo sabe mais ou menos que o padrão na sociedade é ser homem, branco, e heterossexual. Para perceber/confirmar isso basta assistir 30 minutos de comerciais na tv, por exemplo. Alguém pode dizer “Ah, mas eu sou branco e em 1993 eu fui num show de hip hop e me olharam feio”. Mas a criação dessa data, meu filho, não é sobre você. Não é uma reação a uma coisa que acontece de vez em quando com um hétero. Estamos falando de violência e preconceito que atingem gays todos os dias. Repito que os héteros que quiseram reafirmar seus privilégios, pois criaram essa data de orgulho no momento em que o movimento gay tem maior visibilidade de sua história. Não é por acaso, é uma reação. Um grupo conservador, que não perdeu nenhum direito, está reagindo à conquista de direitos de outro grupo. Não consigo imaginar nada mais canalha do que isso. E lamento pelos heterossexuais que acham que essa lei busca “proteger os héteros”. Não honey, essa lei é para atacar o movimento gay.
Por esses motivos não entendo como alguém pode dizer “tenho orgulho de ser hétero” quando isso significa “tenho mais direitos que você”.
quantas vezes ao longo da História mulheres foram desqualificadas porque seriam “instáveis”?
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Eu achava que não ia escrever sobre ela porque todo mundo já escreveu. Não vou falar sobre o que eu acho que significa a morte dela na questão das drogas porque 1.eu não acho nada, 2.já falaram muito disso. Como disse a Marina:
“Um sonho: que a Amy tenha morrido engasgada com uma bolacha maizena e o Globo Repórter fale dos perigos da bolacha maizena.”
Eu quero falar como a música dela me afetou, e sobre as coisas que eu tenho lido (foram essas que me motivaram a escrever).
A primeira vez que eu ouvi a voz da Amy Winehouse foi porque meu irmão me emprestou o celular dele pra eu acordar (tenho o sono muito pesado, por isso às vezes uso dois telefones como despertadores). Quando o celular tocou, era Rehab a música. E eu acordei, mas não desliguei o telefone e fiquei ouvindo aquela música e aquela voz e pensando “putaquepariu, que coisa incrível” (tá, não é o comentário mais genial sobre uma música, mas eu tinha acabado de acordar e ainda não tinha cafeína no meu organismo, dêem um desconto).
Naquele dia eu coloquei no aparelho de mp3 o álbum Back To Black, e fui ouvindo no caminho pro trabalho. Depois ouvi no almoço. E antes da aula. Queria decorar as músicas logo, porque naquelas músicas que tinham coisas tão boas e bem construídas que eu precisava absorver aquilo.
“Ela pôs mais alma ao pop” (Lena)
E depois foram vários momentos, espalhados ao longo dos anos, em que a música dela significou algo. Quando eu e o Gaspar conversamos sobre o álbum e as semelhanças dela com a Janis. Quando eu quis impressionar um cara que era músico(hahaha) falando sobre como gostava dela. Quando eu tinha um emprego que detestava e todo dia no final do expediente ouvia Tears Dry On Their Own pra não chorar. Quando pulei na cadeira na frente do pc ao saber que a Lena tinha encontrado a Amy em Londres. Como em 2009 eu fiquei feliz quando ela surgiu saudável e segura no vídeo abaixo e eu fiquei ouvindo a música a semana toda.
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Ontem ao ler as primeiras notícias no twitter a ficha demorou a cair. Podia ser mentira. Quando confirmaram, eu comecei a chorar. Ela não era minha cantora favorita. Mas como muito gente, eu era fascinada por ela e torcia pra que ela continuasse viva. E como muitos também, me identificava com a fragilidade emocional dela. Porque eu já senti várias vezes que eu não ia dar conta da vida. E tive medo disso. Chamem de empatia, projeção, whatever, mas poucos artistas conseguiram isso, essa aproximação tão imediata com o público.
Reparei que a maioria dos posts em blogs sobre a morte da Amy são de mulheres/garotas. Não são aqueles posts com piadas (sim, eu ri de algumas), nem os comentários de “eu já sabia”, mas os posts sobre a importância da Amy para cada um pessoalmente, estes são quase sempre de mulheres. Desconfio (não tenho estatística) que é a primeira vez na história que as mulheres escrevem mais do que os homens sobre a morte de um ídolo pop. Graças aos blogs mulheres tornam públicas todas essas análises e homenagens sobre Amy Winehouse. Então alguém anota aí pra posteridade que a Amy tem esse mérito, também. (e quando digo mérito, lógico, falo da capacidade dela de atingir as pessoas assim, e tudo isso com apenas dois álbuns lançados).
“toda aquela porção de doçura e beleza precária…E um delineador preto nunca mais vai ser o mesmo.” (Daniela Vasconcelos)
Aí fiquei pensando no comportamente da Amy e o que a reprovação deste comportamento diz para nós mulheres. Usar um monte de delineador preto sob a luz do dia, beber até cair, perder o controle, “sair da linha”, são comportamentos que a sociedade considera reprováveis para uma mulher. Afinal, o Keith Richards, Ozzy e todos esses roqueiros estão aí há anos e ninguém faz “tsc, tsc…” e balança a cabeça negativamente para eles. Pelo contrário, eles são fodões, enquanto Amy seria fraca, abandonada pela família, instável (quantas vezes essa palavra não foi usada para reprimir mulheres, não é mesmo?). Desconfio que parte da nossa identificação com a Amy venha daí também. Afinal, em 2011 até podemos ir a um show de rock sozinhas, mas se acontecer algo conosco na volta alguém vai comentar “Mas porque você saiu tão tarde sozinha?”, como quem diz, “isso acontece com moças que saem sozinhas, a culpa é sua, você não se protegeu”.
Há alguns meses tinha deixado de ouvir Back To Black. Tinha ouvido até enjoar, e ultimamente a minha vida tá melhorzinha, trabalhos legais, nenhum pé na bunda, então eu estava em outro clima. Pensava “vou deixar pra ouvir quando estiver bem triste”.
“Da janela do Baxter’s, Theresa, com uma bandeja de refrigerantes gelados momentaneamente suspensa no braço, olhou para a família. Lágrimas escorreram por seu rosto. Ela tinha se apaixonado por Tom, depois por Ian, depois por Tom de novo, porque eram belos, despreocupados, com um algo a mais, um ar de quem está saciado, como se tivessam passado a vida mergulhados em prazeres e, agora, retribuíssem em formas de ondas invísiveis de contentamento.”
(Doris Lessing, As Avós, p. 13)
Esse trecho é da cena inicial que abre o livro. Tô gostando muito.
Blake Shelton, de Nashville Oklahoma para os nossos corações.
Atualização:
Falando sério: sei lá quem teve a idéia desse programa e que deve estar milionário agora, meus parabéns. Talvez é o único reality show musical que conseguiu colocar dramaturgia na receita de forma eficiente. Algumas vezes o drama aparece de forma planejada: nas blind auditions, na platéia enorme que fica em torno dos cantores e dos treinadores (e não isolada) e pelo fato dos cantores famosos terem que trabalhar também (e alguns deles precisavam muito desse sopro de ar fresco na cerreira).
Mas da dramaturgia “acidental” o que mais me comoveu foi (atenção, contém spoilers):
Jared – tendo já passado um pouquinho (muito?) da idade de ser um astro do rock, é desfiado a cantar “Ain’t No Mountain High Enough” no mesmo palco que Elenowen. Parecia ser o seu fim: cantar uma música de amor contra o casal modelo. Pois ele atropelou os hippies chatos (zzz…) e conquistou a platéia. Foi bonito de ver alguém querendo ganhar tanto e passando por cima do próprio estilo musical pra isso. Fiquei com muita raiva quando Blake eliminou ele em favor de Xena. Xenia – mas Xena também tem uma história comovente. A garota tímida de 16 anos com voz de adulta. Quando ela disse “eu nunca contei sequer pra minha melhor amiga que eu gosto de cantar” ela selou a cumplicidade com o público, que sentiu que ela estava partilhando um segredo com eles. Nenhum roteirista teria pensado nessa. Jeff – pra mim ele ganharia essa bagaça se o burro do Adam não tivesse preferido Javier. O garoto é um cantor clássico, queria muito ver ele cantando Elvis ou Sinatra. É gordinho e perdeu a mãe há 10 meses, ou seja, um personagem que veio pronto. E aquele momento depois que ele cantou Elton John e a irmã dele chorava tanto tanto tanto e dava pra ver que ela chorava por tudo que eles tinham passado até então. =_) Christina – cantora que vez MUITO sucesso no final da adolescência e depois perdeu o fio da meada. Mas ela mostrou no programa que entende de cantar porque pqp todos os conselhos dela são bons. E ela apostou em Beverly, que pra mim não tem carisma nenhum, mas o público gosta. Foi fofa e generosa quando apoiou Jeff e Xenia (que eram de outro time), mas também não levou desaforo pra casa em nenhum momento e disse o que todo mundo pensava sobre Dia. Dia - É falsa? É. É sonsa? Também. Mas o programa é um reality show, todo mundo foi lá pra ganhar e não pra fazer amigos. Ela se fez de tímida que tinha medo de palco e depois ficou claro que não era bem assim (tem vários vídeos no YouTube dela cantando antes). E Christina deu nome aos bois dizendo que ela jogou. E eu acho que o público precisava ouvir isso, porque todo mundo desconfiava mas ninguém dizia. Sorte dela que a extensão do programa não permitirá que a farsa canse a audiência, e ela ainda tem chances de ganhar a competição. Mas sem dúvida é uma ótima cantora, e com muita inteligência musical. Devon – não é um dos maiores cantores, é talvez um dos piores, mas acho que o programa foi muito útil pra ele, mais do que pra qualquer um talvez. Estudante de medicina que quer ser famoso, e Adam (num dos raros momentos de inteligência) mandou ele cantar “Creep”, como quem diz “você é baixinho, magrelo e usa óculos, mas se você falar sobre coisas sombrias as pessoas vão se identificar, olha o Thom Yorke.”
Dá pra baixar os episódios em rmvb legendado aqui. E a final é dia 29/6 \o/
* Uma delicada e importantíssima reportagem de Fabiana Moraes sobre Joicy, transexual que escreveu para o presidente da República, esperou 7 anos e viajou mais de 16 mil km para conseguir uma cirurgia de mudança de sexo. Tem que ler, porque jornalismo bem feito assim quase não existe mais. Aqui.
* O site 60′Playlists tem playlists de 59 a 60 minutos para (quase) todos os gostos, feitas por alguns amigos e amigos-dos-amigos. Eu fiz uma seleção de 17 canções de amor brasileiras, vai lá.
Transcrevo aqui os posts de Jean-Claude Bernardet sobre “Cópia Fiel“, de Abbas Kiarostami. Estou encantada pelo filme e agora pelo que Jean-Claude escreve sobre a obra: “a ideia de uma narrativa cuja situação de base é instável e mutável me parece abrir perspectivas estimulantes.”, diz ele.
Segue abaixo transcrição dos 12 posts. Destaquei as partes que eu mais pirei em negrito.
A relação entre o diretor italiano Roberto Rossellini era um tanto misteriosa. Era evidente que havia algo, mas o quê? Em Caminhos de Kiarostami (2004) escrevi: “Kiarostami é sempre mais do que discreto quando lhe fazem perguntas sobre filmes que viu e de que gostou. [...] Em entrevista, Kiarostami diz que no Irã do Xá podiam ser vistos filmes americanos “que estavam distantes de nossa vida”, e filmes neo-realistas, De Sica e Rossellini, “que estavam mais próximos” (Peter Lennon). S.F. Said o entrevistou especificamente sobre Viagem à Itália de Rossellini, Kiarostami conta a seguinte história: “Recentemente num festival, me pediram que escolhesse um filme que eu quisesse ver uma segunda vez. Escolhi Viaggio in Italia de Rossellini. Quando o vi de novo, pensei que este não era o filme que tinha visto vinte anos atrás. Ele ainda tem momentos excelentes, mas tem erros terríveis. Quando você gosta de um filme durante vinte anos, ele é como uma árvore que cresce com independência dentro de você. Mas você está falando de uma árvore que não existe, porque o que existe de fato é uma pequena planta. O que você vê depois de vinte anos ainda é a pequena planta que você viu no passado [...] O filme parecia tão real, como se a câmera não existisse. Nunca vi a cenografia, vi somente a naturalidade. Eu não sabia que o carro tinha sido colocado sobre trilhos e estava sendo puxado [... Agora] vejo quantos artifícios havia. Toda essa artificialidade que eu sabia estar atrás das cenas se tornou evidente aos olhos de um diretor de filmes”. Não satisfeito com a resposta, Said “inspira fundo” (sic) e desfecha a estocada: acha Kiarostami que Rossellini teve uma grande influência sobre seu próprio estilo? A resposta encerra a entrevista: “Sim, mas eu não quero continuar a falar sobre uma pessoa falecida”. A minha suposição é que a primeira projeção impressionou Kiarostami e, arrisco, foram a viagem e o carro que o marcaram. O filme abre com uma estrada filmada dentro de um carro em movimento, temos vistas da paisagem tomadas da janela, o motorista e a passageira conversam. Quando do lançamento do filme no Brasil, escrevi: ‘É justamente esta noção de trajeto que traduz o objeto concreto que é a espinha dorsal do filme: o automóvel”, o que poderia se aplicar a um filme de Kiarostami. Não se trata de uma influência de Rossellini sobre Kiarostami (aliás, ele recusa com toda razão o termo de “influência”), e seria ingênuo considerar que Viagem à Itália tenha moldado ou coisa parecida a obra de Kiarostami. Mas é possível que ele tenha encontrado nas imagens e estrutura deste filme – o trânsito, o carro na estrada, o interior do carro, personagens conversando dentro do carro – como que uma formalização de um imaginário sobre o qual ele já vinha trabalhando, digamos que o filme de Rossellini teria agido como um catalisador sobre o imaginário de Kiarostami.
Agora podemos afirmar: Viagem à Itália foi um catalizador: Cópia fiel, apresentado na 34ª Mostra, é a prova. O filme de Kiarostami é como uma reescrita do filme de Rossellini, com Juliette Binoche no papel de Ingrid Bergman e William Shimell no de George Sanders. Viagem à Itália é um fantasma que viveu 30 ou 40 anos na mente de Kiarostami e agora desabrocha em Cópia Fiel.
Juliette Binoche interpreta uma francesa que vive na Toscana onde dirige uma galeria de arte. No início da narrativa ela encontra um escritor inglês que viajou à Itália para o lançamento de um livro seu.
No final do filme, cuja trama pode se desenvolver em dois dias ou pouco mais, eles estão casados há quinze anos, vivem separados e ele veio à Itália para se encontrar com ela no dia do aniversário de seu casamento. Eles visitam a pousada onde passaram a lua de mel, e à noite ele deverá viajar de volta à Inglaterra.
A situação em que encontramos os personagens no final do filme (quinze anos de casados, aniversário) não é uma situação que existia no início mas teria sido sonegada ao conhecimento do expectador por algum procedimento narrativo. No início da narrativa os personagens não se conhecem, no final estão casados há quinze anos. A narrativa não se desenvolve a partir de uma situação inicial (conhecida ou não do espectador) e que permaneceria com a função de ponto de partida até o desenlace. Proponho:
Uma possibilidade de compreender Cópia fiel passa pela Teoria da Complexidade (ou do Caos) e a sensibilidade das condições iniciais do sistema. Nessa narrativa as condições iniciais são instáveis e se modificam no decorrer do filme, i. e., se modificam no decorrer da própria narrativa. Exemplificando: num determinado momento o personagem de Juliette Binoche afirma que o personagem masculino não fala sua língua, o francês. Pouco depois ele fala fluentemente francês.
Acredito que essa estrutura narrativa seja inovadora e contribui para escapar às convenções realistas (mesmo que a trama seja fantástica) em que as condições iniciais permanecem fixas.
Essa estrutura narrativa gera dúvidas constantes sobre o que está sendo visto e ouvido. O espectador fica num estado permanente de incerteza.
Quem não acompanha as séries televisão dos EUA talvez não conheça Chris Colfer, que interpreta a personagem Kurt Hummel em Glee. Chris tem apenas 20 anos, é gay e um ótimo ator (já venceu até o Globo de Ouro).
Kurt Hummel foi escrito especialmente para o Chris Colfer, após ele ter feito teste para outro papel (o do Archie). Pelo talento de Chris (e a coragem de Ryan Murphy, criador da série, em arriscar) o personagem Kurt ganhou espaço na trama, e também muitos fãs. Pra quem não sabe Glee é a série de maior sucesso desde sei-lá-quando entre adolescentes e jovens. Isso quer dizer que meninos e meninas adolescentes do mundo todo, gays ou não, torcem pelo Kurt e ficaram felicíssimos quando ele arrumou um namorado, como fariam com qualquer outro persoangem de seriado que gostassem. E sim, e teve beijo entre os rapazes. Aliás teve até um cantando Baby, it´s Cold Outside um para o outro (ounnn…).
Chris Colfer provavelmente está protagonizando a mudança mais importante da televisão em décadas. Além da popularidade de seu personagem entre os adolescentes estar contribuindo para os executivos do entretenimento colocarem personagens gays na tela, o jovem ator ainda faz muito mais, participando de campanhas contra bullying dentro e fora do seriado. Foi comovente o episódio em que após sofrer diversos ataques violentos de um colega (sendo até ameaçado de morte!) o personagem Kurt precisou mudar de colégio. Então vocês imaginam como é importante para um adolescente gay ver alguém interpretar um personagem com quem ele pode se identificar? E depois disso, ver o ator que interpreta esse papel ganhar um Globo de Ouro e fazer um discurso contra a discriminação? Não é à toa que Chris Colfer foi eleito uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista TIME.
Numa entrevista o ator Rupert Everett aconselhou jovens atores gays a não saírem do armário, pois isso poderia limitar seus papéis. O alerta de Rupert Everett faz sentido, já que Hollywood adora quando um hétero interpreta um gay (como Sean Penn em Milk, ou Heath Ledger em Brockeback Mountain) mas alguém aí lembra de algum gay assumido interpretando um hétero num filme de Hollywood? Parece que parte do público ainda tem dificuldades com isso, mas acho que as gerações mais jovens lidam melhor com a questão. Por exemplo, muitos jovens tem certeza acham que Jake Gyllenhaal é gay, mas continuam assistindo aos filmes em que ele interpreta héteros mesmo assim.
Chris Colfer parece ser muito esperto para ser engolido pela indústria, e atualmente está escrevendo o roteiro de um filme que irá protagonizar. Torço pra que a carreira dele continue indo bem (aposto que vai). Ah, e torço para que ela faça logo um filme com a Emma Stone, que é a jovem atriz mais talentosa que surgiu nos últimos tempos.
E-mail que a ouvidoria da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres enviou após eu e outras pessoas informamos o órgão sobre a declaração de Rafinha Bastos sobre estupro:
Prezadas/os,
Ao cumprimentá-las(os) cordialmente, informamos que a Ouvidoria desta Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República recebeu seu e-mail referente às declarações do humorista Rafinha Bastos.
Quanto a sua demanda, informamos que esta Ouvidoria oficiou o Ministério Público Federal por meio do Ofício nº 926/2011, entendendo que tais declarações fazem apologia ao crime de estupro. Além disso, esta Secretaria publicou nota no site www.sepm.gov.br/noticias para manifestar publicamente sua indignação.
Assim sendo, nos colocamos à disposição os esclarecimentos necessários.
Atenciosamente,
Ouvidoria
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres
Presidência da República
www.sepm.gov.br
ouvidoria@spmulheres.gov.br
O ofício foi encaminhado à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão que ainda não decidiu sobre o caso. Assim que tiver notícias posto aqui.
Importante: os patrocinadores do Rafinha Bastos são @nokiabrasil @pepsibr e @viaembratel. Pra quem tem twitter vale a pena reclamar nessas empresas também.